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16/02/2014 - Artigo Técnico
Mastite: fatores desencadeadores, diagnóstico, tratamento e prevenção
por Rafael Águido, Equipe Rehagro - texto adaptado

Artigo técnico sobre a importância do tratamento e da prevenção da mastite. Saiba como o cuidado com a higiene, o treinamento da mão de obra, o conhecimento dos agentes e medicamentos, além do gerenciamento dos números / indicadores podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso do combate à doença.

 


 

O principal desafio das propriedades da atividade leiteira, atualmente, é a implantação de um programa de prevenção da mastite baseado em um bom manejo de ordenha, na melhoria das condições ambientais, bem como da capacidade imunológica das vacas, dando a elas condições de combater rapidamente a invasão de micro-organismos na glândula mamária. Um ponto importante no sucesso contra a apresentação clínica da doença é a eficácia no tratamento, evitando recidivas e o surgimento de vacas afetadas cronicamente, o que, hoje, é uma das principais causas de descarte involuntário, além de ser a fonte dos maiores gastos com medicamentos em uma fazenda leiteira.

 

Inúmeros são os questionamentos quanto ao tratamento da mastite clínica: 

    • Quantos dias tratar? 
    • Qual antibiótico usar? Injetável e/ou intramamário? 
    • Devo ou não utilizar anti-inflamatórios? 
    • Quando devo trocar a base do antibiótico?

 

Apesar de algumas estratégias mostrarem bons resultados, a verdade é que não existe uma “receita” pronta que resulte no sucesso do tratamento, mas sim o somatório de alguns fatores, tais como: o cuidado com a higiene, o treinamento da mão de obra, o conhecimento dos agentes e medicamentos, além do gerenciamento dos números / indicadores (que são decisórios para o sucesso no tratamento dos casos clínicos nas fazendas).

 

Recidivas

A frequência de novas infecções e duração das infecções já existentes determina a gravidade da mastite no rebanho. E este é o grande desafio do tratamento: promover a cura clínica e bacteriológica. Ou seja, acabar com os sintomas e com os micro-organismos que estão infectando a glândula mamária. Essa é a realidade em várias fazendas que têm em seu rebanho algumas vacas que retornam à mastite inúmeras vezes na lactação e são de difícil cura. Isso acontece pelo fato da doença flutuar entre a forma clínica e a subclínica, sendo essa reversão considerada muitas vezes como cura. Vacas subclínicas que voltam a apresentar mastite clínica em estágios avançados da lactação apresentam menor taxa de cura, pelo fato do micro-organismo invadir o tecido secretório e, a partir daí, não ser eficientemente atingido pelo antibiótico. Isso evidencia a necessidade de se tratar bem o primeiro caso clínico da lactação, visando minimizar os retornos.

 

Diagnóstico precoce

O primeiro passo para o sucesso no tratamento do caso clínico é o diagnóstico precoce. Nesse ponto, são detectadas falhas graves nas fazendas, principalmente relacionado ao critério utilizado pelos ordenhadores no momento de iniciar ou não a terapia. Há um conhecimento empírico de que a mastite clínica acontece apenas mediante o aparecimento de grumo, evitando que os responsáveis pelo acompanhamento fiquem alertas para outras alterações que podem ser detectadas precocemente, tais como:

    • Alteração na característica do leite: “aguado” ou com coloração alterada
    • Úbere inchado, vermelho e quente
    • Pequenos grumos nos primeiros jatos do teste da caneca (o que, para muitos, é apenas o resquício do leite residual da ordenha anterior)

Portanto, os ordenhadores devem estar treinados para identificar as diferentes alterações causadas pela mastite, para que a precocidade no tratamento seja determinante no sucesso do mesmo.

 

Higiene no tratamento

Após o diagnóstico, outro ponto fundamental é a higiene dos procedimentos de tratamento. É fato que, logo após a remoção das teteiras, a ponta do teto está contaminada e a introdução das cânulas intramamárias sem uma prévia desinfecção leva a reintrodução de bactéria na cisterna do teto, diminuindo as chances de cura.

Micro-organismo são reintroduzidos na glândula mamária quando não há prévia desinfecção da ponta do teto

Micro-organismos são reintroduzidos na glândula mamária quando não há prévia desinfecção da ponta do teto

A partir disso, tem-se usado com sucesso a desinfecção da ponta do teto com o produto de pré ou pós-dipping (Iodo, Cloro, Clorexidine, etc.), durante um mínimo de 30 segundo, seguida da secagem com papel toalha, ou mesmo a utilização de lenço ou algodão umedecidos em álcool 70%, para posterior introdução da cânula. Além disso, atitudes simples como a utilização de luvas pelo ordenhador, a remoção do lacre da bisnaga apenas momentos antes da aplicação e a introdução de cânulas curtas diminuem consideravelmente uma nova contaminação do canal do teto.

Sequência de procedimentos  visando a desinfecção do teto antes e após o tratamento evitando a introdução de micro-organismos

Procedimentos para uma boa higiene no momento do tratamento de mastite clínica:

    1. Desinfecção da ponta do teto com solução de pré ou pós-dipping
    2. Secagem com papel toalha
    3. Limpeza da ponta do teto com álcool
    4. Abertura do lacre próximo à ponta do teto
    5. Introdução de cânula curta
    6. Pós-Dipping

 

Duração do tratamento

Quanto tempo devemos tratar as vacas para garantir boas taxas de cura e o mínimo de recidivas, de maneira economicamente viável? No dia-a-dia das fazendas, é possível encontrar protocolos de tratamento que preconizam a finalização do antibiótico quando, na ordenha, a vaca não apresentar mais grumos no leite, sendo comum, inclusive, que algumas vacas apresentem melhora clínica logo no primeiro dia. No entanto, terapias curtas aumentam os riscos de cronificação, de aumento de CCS e de recidivas futuras com baixíssima taxa de cura. Então, o que fazer?

 

Estudos mostram que, ao contrário do que dizem as bulas dos medicamentos intramamários, as terapias devem ser prolongadas para garantir a cura bacteriológica e devem priorizar a utilização de antibióticos intramamários. Terapias parenterais (antibióticos injetáveis) devem ser utilizadas em situações especiais, as chamadas mastite grau 3, nas quais a vaca apresenta estado clínico geral ruim, com febre, falta de apetite, desidratação e letargia.

Taxa de cura de casos clínicos causados por Streptococcus

AQUI Taxa de cura de casos clínicos causados por Streptococcus uberis (fonte: Hilerton JE et al., 2002)

Uma estratégia interessante é o tratamento por, no mínimo, de 3 dias, em 2 ordenhas diárias, independentemente da melhora do quadro clínico. Em casos de insucesso no tratamento com a primeira base de antibiótico, é necessário iniciar uma nova terapia com novo medicamento, utilizando o mesmo protocolo da primeira base. Caso necessário, uma terceira base deve ser utilizada em animais que não respondam bem aos dois primeiros tratamentos. Por isso, é importante ter na propriedade pelo menos 3 antibióticos intramamários como alternativa para vacas que não respondam bem ao início do tratamento. Outro ponto importante é tratar os animais por pelo menos 2 ordenhas (24 horas) após o fim dos sintomas, garantindo além da cura clínica, uma grande chance de conseguir a cura bacteriológica.

Taxas de cura em casos de mastite clínica causada por Strep. Uberis

Taxas de cura em casos de mastite clínica causada por Strep. uberis (fonte: Hilerton e Kleim, 2002)

 

O que fazer quando o antibiótico intramamário não é suficiente?

Em algumas circunstâncias, é preciso recorrer a outros medicamentos, como anti-inflamatórios e antibióticos injetáveis. Para isso, visando à padronização, classifica-se a mastite em 3 graus, viabilizando a obtenção de parâmetros para a tomada de decisão sobre qual terapia instituir.

Mastite Grau 1
Alterações visíveis apenas nas características do leite. Ou seja, o animal não apresenta inchaço no úbere ou qualquer alteração no seu estado clínico geral. Nestes casos, encontram-se apenas grumos ou leite com características anormais na coloração e viscosidade. Neste tipo de mastite é necessária apenas a utilização de antibióticos intramamários.
Mastite Grau 2
Alterações visíveis no leite e na glândula mamária. Nesta categoria, estão os animais que apresentam alterações no leite e na glândula mamária. Estes casos são facilmente diagnosticados pelo fato do úbere apresentar-se avermelhado, quente, com aumento de volume e muitas vezes mais consistente. Nestes casos, é necessária a utilização de antiinflamatórios não esteroidais (AINES) associados ao antibiótico intramamário.
Mastite Grau 3
O animal apresenta alterações no leite, glândula mamária e no seu estado clínico geral. As vacas encontram-se prostradas, desidratadas, comem pouco e em muitos casos apresentam as mucosas congestas (arroxeadas). Muitos destes casos graves de mastite são causados pela chegada de bactérias à corrente sanguínea ou liberação de toxinas por elas, causando uma reação inflamatória sistêmica que deve ser minimizada rapidamente ou pode matar os animais em poucas horas. Nestas situações, é importante utilizar antibióticos injetáveis (Sulfa e Trimetropim, Ceftiofur, Oxitetraciclina, etc.) e intramamários, além de um tratamento suporte com anti-inflamatórios (preferencialmente flunixine meglumine) e hidratação oral ou endovenosa.

Mastite clínica: Grau 1, 2 e 3

Mastite clínica: Grau 1, 2 e 3 (respectivamente)

 

Qual antibiótico utilizar?

Muitas propriedades utilizam o antibiograma com o objetivo de escolher o medicamento e o protocolo de tratamento baseado nos resultados destes testes laboratoriais. O fato é que os diferentes tipos de antibióticos (Gentamicinas, Cefalosporinas, Penicilinas, Tetraciclinas, etc), apresentam resultados variados dependendo da fazenda. Além disso, vários trabalhos revelaram pouca relação entre os resultados de sensibilidade (antibiograma) e as taxas de cura bacteriológica. Esta divergência é atribuída aos poucos estudos quanto ao comportamento da solução intramamária dentro da glândula mamária. Um exemplo disso é que a grande maioria dos testes mostra uma alta sensibilidade do Staphilococccus aureus aos antibióticos e, na prática, o tratamento de vacas portadoras deste agente é comumente frustrante.

 

Então, como serão escolhidos os antibióticos utilizados na fazenda? Para a decisão acertada, é preciso recorrer à gestão dos números que envolvem o tratamento de mastite e fazer com que a propriedade seja o “antibiograma” e diga qual antibiótico utilizar. Para isso, é necessário que haja anotações criteriosas dos tratamentos pelos ordenhadores. A partir destas planilhas de controle será possível definir quais antibióticos utilizar baseados em um índice chamado de “Eficiência de Tratamentos”.

Relatório ‘Saúde de Úbere’, parte referente aos dados de Mastite Clínica

Relatório ‘Saúde de Úbere’, parte referente aos dados de Mastite Clínica (fonte: Sistema IDEAGRI)

 

Para o levantamento destes números, são levadas em consideração as vacas que se curaram com determinado antibiótico - vacas que se curaram da mastite e não apresentaram recidiva no quarto tratado após 15 dias do final do tratamento. A partir deste índice é definida a eficiência de cada protocolo, que já é conseguido em alguns softwares de gestão pecuária, tais como o Sistema IDEAGRI

Relatório ‘Saúde de Úbere’, gráficos

Relatório ‘Saúde de Úbere’, gráficos (fonte: Sistema IDEAGRI)

 

Imunidade

Além dos objetivos propostos de diminuir o desafio ambiental e tratar corretamente a mastite, é importante que se tenha como foco a imunidade da vaca. Para isso, deve-se estar atento ao estresse (térmico, social, manejo, etc.), balanceamento de minerais e vitaminas e preservação do esfíncter do teto, por este ser a primeira barreira contra a entrada e colonização bacteriana no úbere.

 

Toda esta preocupação com a imunidade vem do fato de que algumas infecções na glândula mamária terem auto resolução e este processo ser totalmente dependente da eficácia dos mecanismos de defesa do animal, principalmente nas mastites ambientais causadas por gram-negativos. Somado a isso, o sucesso da ação do antibiótico é extremamente dependente do sistema de imune da vaca, uma vez que mesmo durante o tratamento, grande parte da eliminação de bactérias no úbere é feita pelas células de defesa.

 

Em resumo, pode-se concluir que vacas com bom sistema imune têm menos casos clínicos de mastite, se curam mais rápido e consomem menos medicamentos, diminuindo os impactos negativos desta doença no rebanho.

 


Adaptação do Artigo ‘Mastite - Entenda o que é, quais são os fatores desencadeadores, como diagnosticar, como tratar e prevenir’, disponível em:
http://www.rehagro.com.br/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=2316

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