IDEAGRI - Decisão Certa! Lucro Certo!

Canto Porto: de volta à genética com toda força

10 de Janeiro de 2018
por: Luiz H. Pitombo - Balde Branco - texto adaptado

Propriedade que já teve marca de leite tipo 'A' volta à atividade em alta escala com genética própria de Girolando e pasto irrigado. Também faz parte do projeto a produção de embriões. A família Canto Porto tem raízes na cidade de Mogi Mirim, cerca de 170 km a Noroeste da capital paulista, no mesmo município em que no início da década de 1980 adquiriu a Fazenda São Francisco. A propriedade passou por diferentes fases até chegar ao seu atual projeto de produção de leite a pasto e comercialização de embriões de fecundação in vitro (Fiv) das raças Gir e Girolando, o que começou há quatro anos. A fazenda é parceira e usuária do IDEAGRI.

Este trabalho ganhou importante estímulo com a recente aprovação do Mapa-Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a exportação de genética, com aspiração de oócitos e sua seleção em laboratório próprio e produção dos embriões pela empresa In Vitro Brasil, que tem sede na propriedade (veja o box). Já existem interessados na África para a compra de 3 mil embriões e outros mil para a Índia, estes, unicamente de Gir PO selecionado para leite no Brasil. Os planos igualmente contemplam a exportação para países da América do Sul. 

A produção de leite também avança com o início das obras de terraplenagem para a implantação de um sistema de produção a pasto irrigado por pivôs para 1.400 vacas Girolando 3/4 em lactação na Fazenda Santo Antônio, a apenas 20 km da São Francisco. Nesta última, a produção diária atual é de 7 mil litros de leite, que se somarão a outros 35 mil do novo projeto, volume previsão para até 2023. 

A produção leiteira na São Francisco não é novidade e já contou antes com um projeto bem diferente, instalado após a propriedade ser adquirida por Antônio Carlos Canto Porto Filho, o Totó, como é mais conhecido. Economista de formação e sócio do Banco BTG Pactual, ele optou na ocasião pela produção de leite em sistema de free-stall com vacas da raça Holandesa, lançando posteriormente a marca Forty de leite tipo A, quando atingiu o volume diário de 12 mil litros. O negócio foi interrompido e o plantel foi liquidado em 2002 por dificuldades de escoamento junto ao comércio varejista. 

LEITE EM PAÍS TROPICAL – "Nosso lema é praticidade, rusticidade e eficiência. Quando terminamos o sistema anterior, já tínhamos a concepção de que a produção de leite em um país tropical mantendo esses princípios precisava ser com animais Gir x Holandês", afirma Totó. 

 imagem

A oportunidade de iniciar um negócio com este enfoque surgiu algum tempo depois, quando um criador pagou por serviços com novilhas Gir PO de seleção da Fazenda Calciolândia, de Gabriel Donato Andrade. A estas, conta que fecharam parcerias de outros selecionadores tradicionais da raça que buscavam produção de leite a pasto, como as Fazendas Campo Alegre e Terra Vermelha, dos criadores Francisco Barreto e Kinkão, respectivamente.

A partir de um plantel de doadores GIr, passaram a utilizar sêmen sexado dos melhores touros da raça Holandesa. "Sem preocupação com valores. Porque com uma única dose podemos fazer 30 embriões Fiv diluindo o investimento", justifica. O projeto, em seu princípio, como reconhece Totó, tinha como maior interesse a comercialização de embriões. Entretanto, com o leite obtido estavam conseguindo uma margem tão boa que partiram para incrementar o volume.

 

imagem

  Através da Fiv conquistaram um rápido crescimento do rebanho e de produção. Hoje, cerca de 80% da receita da propriedade vem do leite, e 20%, da venda de embriões, porcentagens que devem se manter quando o projeto estiver consolidado.

 

Através da FIV, a fazenda obteve um rápido crescimento do rebanho e da produção de leite  

 

O comando dos negócios é partilhado com dois de seus filhos, João Carlos e Antônio Carlos, o Tonico, que também é economista. "Estamos satisfeitos com o resultado, até acima das expectativas, tanto que decidimos ampliar ainda mais a produção de leite sempre com animais de nossa seleção. E com a venda de embriões estamos sempre otimistas, pois devem igualmente crescer, com o nosso sistema de produção representando uma vitrine da genética com que trabalhamos", diz.

 imagem

 

imagem   Ele destaca que a totalidade das vacas Girolandas produz leite sem a necessidade de aplicação de ocitocina ou manutenção de bezerras ao pé, com a média geral ficando entre 22-23 litros de leite/dia, o que deverá subir, pois 70% das fêmeas são primíparas.
O rebanho Girolando é formado por 300 fêmeas em lactação, com média de 22 litros de leite/dia  

Na seleção dos animais, conta que dão atenção especial à docilidade, conjunto mamário, velocidade de ordenha e aprumos. Também destaca que os resultados estão atrelados a um bom manejo e a uma equipe que foi formada na fazenda ao longo do tempo, que periodicamente é submetida a reciclagens e que tem à frente o gerente Geraldo Marcantonio. Igualmente salienta o trabalho de consultoria do médico veterinário Ernane Campos, do Rehagro.

Nesta nova etapa de trabalho, a marca comercial que passaram a adotar é a 'Canto Porto', tanto no que se refere à genética bovina quanto ao leite e aos equinos da raça Crioula, que também selecionam. Não existe intenção de verticalizar a produção de leite como antes, mas de continuar a comercializar para terceiros. Em paralelo, um lacticínio está voltado à produção de queijos dentro da fazenda.

Os valores pagos têm como referência os preços divulgados pelo Cepea-Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, Esalq/USP, acrescidos de 10% como prêmio por qualidade do produto, totalizando em setembro R$ 1,54/litro, o que garante um bom retorno, como avalia Tonico, referindo-se aos custos totais de produção, que estavam em R$ 1,38/litro. A análise do produto tem revelado um teor de gordura de 3,97%; de proteína, de 3,38%; de células somáticas, entre 280 e 300 mil/ml, e de 5 mil UFC/ml de contagem bacteriana.

ESTRUTURAS NOVAS E ISOLAMENTO – A Fazenda Santo Antônio, adquirida há dois anos, possui uma área de 470 ha, onde serão instalados oito pivôs centrais, cinco deles para a produção de alimentos, como silagem da planta inteira de milho e silagem só da espiga (snaplage), que abastecerão as duas propriedades. Outros três pivôs estarão na área de pastejo das vacas em lactação através do sistema intensivo rotacionado, utilizando a gramínea tifton sobressemeada com aveia e azevém para uso no período de abril a setembro, tal qual já acontece na S. Francisco.

Para a ordenha, será instalada uma estrutura rotatória para 50 posições. "Estamos planejando há um ano e o projeto trará ganhos de eficiência em sua operação em relação à primeira propriedade", afirma Tonico. A São Francisco tem seus 489 ha subdivididos em 22 ha de pastos irrigados por aspersão para o uso das vacas em lactação. Outros 324 ha estão com braquiarão, doadoras e receptoras cruzadas. Existem ainda 68 ha de áreas de preservação permanente e 48 ha entre represas, estradas, sede e instalações.

 

A estrutura que permitirá a obtenção de material para os embriões Fiv para exportação é composta por laboratório e brete para as aspirações e demandou uma série de cuidados em sua instalação, como aponta Marcantonio, responsável pelo setor de pecuária, incluindo o de pessoal, e as áreas reprodutiva, sanitária e cirúrgica do rebanho, contando com a colaboração de outros dois veterinários.

  imagem
Plantel de doadoras Gir tem utilizado sêmen sexado de touros Holandeses para produzir embriões

Dentre esses cuidados, cita a necessidade do isolamento da área por questões sanitárias e exigência dos importadores, com o acesso ficando restrito aos técnicos envolvidos nos trabalhos. Foram utilizadas como barreiras um lago, mata e uma área em faixa com 25 m de largura onde deverá ser implantada uma capineira. A propriedade é livre de tuberculose, brucelose e BVD.

Desde que se iniciou o projeto até setembro, o médico veterinário conta que já foram produzidos cerca de 19 mil embriões Fiv para uso próprio ou comercialização, entre meio-sangue (60%), Gir PO (30%) e outros graus de sangue. As vendas têm se concentrado em estados da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, o maior cliente, sendo que igualmente atuam junto ao Sebrae e programa de apoio a pequenos produtores, com 3/4 do valor subsidiado pela entidade e 1/4 sob responsabilidade do produtor.

Os embriões comercializados são implantados em receptoras na propriedade pela equipe da In Vitro com valores na faixa dos R$ 950 a R$ 1.200 (genética, mão de obra, deslocamento e prenhez confirmados em 60 dias). Por hora não se pensa na venda de animais, o que somente deverá acontecer quando se atingir a lotação da Santo Antônio.

Um bom lote de animais Girolando se encontra em formação com receptoras em propriedades de parceiros no Mato Grosso e em Goiás, além de outra propriedade de Totó no Mato Grosso do Sul, dedicada a gado de corte, onde se utiliza fêmeas comerciais Nelore para embriões Fiv. Ao total são perto de 2.300 prenhezes só neste ano, com a predominância de fêmeas 3/4 Holandês.

MANEJO DE DOADORAS – O plantel atual de doadoras Gir é composto por 148 fêmeas que são aspiradas a cada 21 dias obtendo-se como rendimento médio 15 oócitos por vez, dos quais 30% resultarão em embriões (4,5 unidades). São 50% de prenhez se implantados a fresco (2,2 unidades) ou 40% se congelados (1,8 unidade). É destaque deste rebanho a matriz 'Abreci' ('Sansão' x 'Sagitária T'), que rendeu 9.454 kg de leite em 305 dias.

As novilhas da raça gestam seu primeiro e único embrião Fiv aos 18 meses de idade ou 340 kg de peso e terão sua lactação aferida que deverá atingir ao menos 4.000 kg de leite ajustados aos 305 dias, caso contrário são descartadas. No momento, dez primíparas estão em acompanhamento de produção.

O sêmen utilizado é o de tourinhos genômicos norte-americanos, adotando-se estratégia recomendada de utilizar quatro animais diferentes por temporada. Como receptoras dos embriões Fiv, qualquer que seja a raça, existem 89 fêmeas Nelore x Angus F1 com os demais sendo implantados em animais do próprio plantel.

Já o rebanho de Girolando é formado por 300 fêmeas em lactação, com as meio-sangue produzindo em média 22 litros kg/dia de leite a pasto e as 3/4 com 25. Outras 120 fêmeas estão em pré-parto (novilhas ou vacas) e 37 são doadoras secas. Independentemente do grau de sangue, a cada aspiração intercalada de 21 dias, se obtém em média 30 oócitos com rendimento de 20% (6 embriões), que implantados apresentam taxas de prenhes similares ao do Gir.

Elas entram em reprodução aos 16 meses de idade e sempre se espera que atinjam 340 kg de peso vivo, quando recebem seu primeiro embrião Fiv e também terão sua lactação aferida. As linhas de corte na seleção, sempre ajustada aos 305 dias, são de 5.000 kg de leite para as meio-sangue; 4.500 kg para as 1/4 e 6.000 kg para as 3/4. A totalidade das fêmeas, independentemente da raça, tem sua lactação aferida.

Além disso, Marcantonio lembra que as fêmeas também passam a se pontuadas em vários outros aspectos (temperamento, velocidade de ordenha, morfologia etc.) incluindo o próprio desempenho posterior das filhas. Até os 120 dias de prenhez, quando entram no período pré-parto, as doadoras Girolando já aprovadas são aspiradas. Ele comenta que o rebanho é ordenado duas vezes ao dia, mas até os primeiros 15-20 dias esta quantidade sobe para quatro vezes ao dia visando estimular a produção.

Deste plantel, um dos animais de destaque é 'Cristal (LA)', uma matriz meio sangue que rendeu 12.269 kg de leite ajustado em 305 dias, com pico de 54 kg de leite/dia. Dela foi produzido um clone na propriedade que está com 15 meses de idade e que vai receber seu primeiro embrião. Na média geral – Gir e Girolando – tem obtido uma taxa de prenhez com embriões Fiv de 59% quando são novilhas, e de 48% quando são vacas, o que salienta que são bons índices.

Avaliando a raça Girolando, o veterinário também a considera a mais adaptada do Brasil, apresentando melhores taxas de prenhez, menores problemas sanitários referentes a metrite, cascos e hipocalcemia, menos descarte e maior vida produtiva. "Para o mercado externo, estas características também são atrativos importantes", comenta. Também defende o sistema a pasto, pois diz que além de resultar em um leite mais barato, salienta que existem aspectos positivos relacionados ao bem-estar animal.

DOMA RACIONAL E CONFORTO TÉRMICO – No manejo mais recente do rebanho, esses dois aspectos passaram a merecer especial atenção. Na região da São Francisco, a média anual da temperatura é de 26° C, mas no verão esta chega a 31-32° C. Assim é que o veterinário, preocupado com seus efeitos na perda gestacional e na produção de leite, resolveu fazer um teste no mês de abril. Para isso, selecionou animais meio-sangue de alta produção para o monitoramento de sua temperatura através de termômetro intravaginal, constatando que em 60% do dia estavam sob estresse térmico. "E nem era o período mais quente do ano, mas os animais Girolando, apesar de mais rústicos, também estão sujeitos ao problema", lembra.

Assim é que já adotaram medidas como a colocação na área de espera da sala de ordenha de aspersão e ventiladores. A próxima deverá ser a adoção destes mesmos recursos na linha do cocho, onde os animais recebem suplementação de concentrado.

Como são medidas em andamento, ainda não foi possível mensurar seus impactos, diferentemente da doma racional. "Houve uma melhora excepcional na fazenda após o curso ministrado para todos os funcionários da pecuária sobre doma racional", ressalta Marcantonio. Ele se baseia na redução de problemas e dificuldades de manejo com os animais na ordenha e na recuperação e manutenção da produção de leite sem ocitocina, após uma queda inicial com sai suspensão.

imagem  

A partir do nascimento, tanto o Gir como o Girolando passam a receber por parte dos tratadores uma interação positiva e sem violência com os animais. Para um trabalho mais intensivo com os animais no pré-parto, foi selecionado o funcionário que melhor desempenho teve no curso, Renato Souza Santos Jr. Este fica encarregado, por exemplo, de levar as novilhas duas vezes ao dia para andar pela sala de ordenha, também passa a esfrega-las com um instrumento apelidado de 'cotonete' pela semelhança que guarda, além de escovações.

Desde a fase inicial de vida, o manejo dos animais é marcado por uma interação positiva, sem violência  

Os animais Gir estão na ordenha atualmente sem bezerro ao pé, mas com aplicação de ocitocina, mas a perspectiva pé de que as novas gerações bem domadas e selecionadas poderão ser enquadradas no manejo geral.


Rua Santa Fé, nº 100, conj 203, Sion - CEP: 30320-130 - Belo Horizonte/MG

Geral: (31) 3344-3213 - Comercial: (31) 99272-8302 VIVO - (31) 97128-2169 TIM

Suporte: (31) 3221-0709 - (31) 99952-6594 VIVO - (31) 99509-3854 TIM - (31) 99278-2275 TIM

Skype: ideagri - email: ideagri@ideagri.com.br