Ajustes na expansão de uma grande fazenda

Ser a primeira propriedade leiteira de Minas e a quarta no País em volume de leite não significa estabilidade para os técnicos que administram a Fazenda São João, também conhecida como True Type, localizada no município de Inhaúma. Eles dão sinais de que sabem que a atividade exige mudanças constantes para assegurar rentabilidade e retorno suficiente, a fim de absorver inovações e também investir em tecnologias que se adaptem a uma estrutura de larga escala, cujas soluções, mudas vezes, dependem de serem criadas. A Fazenda São João é pioneira no uso do software IDEAGRI.


No ano passado, a produção média diária de leite foi do 35 mil litros, fechando o exercício com 1.358 vacas em lactação e média de 25.8 kg de leite/vaca/dia. Hoje. a ordem é superar esses números e expandir o negócio. Sobre a produção específica de leite, o gerente e veterinário Paulo Henrique M. Garcia adianta que a meta mais próxima é atingir 45 mil litros antes do final do ano, aproveitando-se dos indicadores compensadores que vêm marcando a atividade desde o ano passado.

“A ampliação do negócio segue de acordo com a satisfação proporcionada pelos índices que temos alcançado”, ele explica. Para isso, conta com o espírito empreendedor da família Guarani, os donos da fazenda, e a capacitação técnica de uma equipe que trabalha integrada desde o início da atividade da São João, 12 anos atrás. Atualmente, o que vem se definindo é um ajuste de rota, não só no sentido de formatar uma nova dimensão para se produzir leite, mas também com a finalidade de disponibilizar alta genética ao mercado.

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Garcia: pré-secado no cocho e as novilhas nascidas de embriões da Bomaz


A fazenda tem uma grande área, cerca de 1170 ha, quase toda plana. Dela, fazem parte 8 pivôs, que irrigam boa parte do milho produzido para silagem, em torno de 360 ha,que significam 20 mil t de volumoso ou 54 t/ha, mais exatamente, 18 t de matéria seca/há. O tifton, que começa agora a ter sua área ampliada para 80 ha, deverá atender ao projeto de leite a pasto, que passa a ser incorporado ao sistema, ao mesmo tempo em que terá reservas destinadas à produção de pré-secado. Cada opção ocupará 40 ha.

A readequação da área agrícola indica uma produção mais intensiva do milho na safrinha e a eliminação do cultivo do feijão, uma cultura que antes de apresentar problemas de sanidade se mostrava como boa parceira da soja para o negócio grãos da fazenda. Completando, tem a cana-de-açúcar numa área de 60 ha. Produzindo 90 t/ha, quase tudo reservado para a recria, vacas secas e lotes de menor produção durante o período de inverno, já que produz mais matéria seca (25 t/ha) que o milho por área.

Free-stall junto ao pastejo intensivo - Decidir por tais ajustes e principalmente incorporar uma grande área de pastejo intensivo ao projeto, que até este ano era exclusivamente de confinamento, exigiu muitos cálculos. Segundo Paulo Henrique, prevaleceu o fato de se buscar uma ação rápida, que proporcionasse um retorno de curto prazo e não envolvesse grande investimento em estrutura. A lotação do free-stall caminhava para o limite da capacidade, e era preciso instalar um novo rebanho em produção, que agora começa a surgir, ele comenta.

A capacidade de confinamento na São João é de 1.350 vacas e o projeto está sendo ajustado para 1.750, ou seja, mais 400 fêmeas que deverão ser alojadas na área de pastejo. Além da expansão do rebanho, outra alteração que muda o perfil da fazenda é a composição genética, antes, marcada pela presença exclusiva da raça Holandesa. Há quase dois anos, a raça Girolando vem se multiplicando através de fertilização in vitro. A base de trabalho é um lote de 140 novilhas meio-sangue, adquirido de diferentes rebanhos.

A proposta é fazer fêmeas de diferentes graus de sangue a partir de grau 3/4. A técnica é aplicada pela Cenate Embriões, parceira no projeto. Com as parições ocorridas nos últimos três meses, o rebanho aumentou 20%. Hoje, 30% de animais Girolando fazem parte do total do rebanho que. Além das citadas vacas em produção, é composto de um acentuado contingente do gado jovem, cerca 2.800 cabeças, entre bezerras e novilhas, todas, nascidas na propriedade.

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Sistema a pasto ganha espaço para elevar produção de imediato sem investir alto

Se no ano passado vendeu 250 animais, a São Joäo quer até 2016 atingir uma oferta anual de 400. A técnica de FIV prevalece na reprodução das vacas, reservando a inseminação apenas para novilhas. Com isso, vem obtendo 70 embriões por semana, número que deverá passar de 110 até o meio do ano. Os benefícios dessa estratégia são apontados pelo gerente Paulo Henrique: “Aumenta o número de fêmeas, acelera o melhoramento genético e ganha na eficiência reprodutiva, esclarece, observando que o custo da técnica é plenamente com pensado pela larga escala empregada.

Um leilão já está marcado para agosto, quando deverá oferecer vacas, novilhas e bezerras Holandesas e Girolando, além do prenhezes de animais importados. No último leilão, realizado em março/2013, a média de preços de vacas Holandesas foi de RS 10.200; de novilhas, RS 6.800 e de bezerras, R$ 4.000, A valorizada seleção obedece a critérios da central Alta, que define tou ros de acordo com o perfil de cada indivíduo do rebanho. Um diferente grupo de cinco reprodutores é utilizado a cada semestre.

Mais leite e bezerras bem desenvolvidas - Do plano de ajustes implementados no rebanho leiteiro da São João também fazem parte intervenções na dieta. A primeira delas, em prática desde agosto último, envolve os bezerros, que passaram a receber uma alimentação mais equilibrada e consistente, com o desaleitamento sendo prorrogado de 60 para atuais 90 dias. Segundo Sérgio Soares, consultor de nutrição da fazenda, a proposta é conseguir animais mais sadios, resistentes e mais precoces para reprodução.

O passo-a-passo começa na primeira semana após o nascimento, período em que a bezerra recebe 6 litros/dia, em duas vezes. A partir da segunda semana até completar um mês, 7 litros. Daí em diante até os 90 dias, a mesma quantidade, mas apenas uma vez ao dia. Razão? “É para estimular o consumo de ração e diminuir o uso de mão de obra”, cita Soares, observando que tanto a ração quanto a água devem estar sempre disponíveis.

No caso da São João, conta que em vez de leite fornece sucedâneo a partir do segundo mês, com sólidos a 15%. Diz também que a ração fornecida é formulada com 25% de proteína e que de sua composição fazem parte: farelo de soja, farelo de trigo, açúcar de varredura, minerais, vitaminas e milho, sendo que um total de 15% dos grãos é moído mais grosso e misturado ao fubá. “Assim, eleva-se o pH do rúmen, evitando-se a acidose’, diz o nutricionista, observando que feno de tifton, numa proporção de 5%, completa o cardápio desta fase.

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Com nova dieta, novilhas atingem 130 kg aos 100 dias e 330 a 350 aos 13 meses, quando já podem ser inseminadas


Após chegar aos três meses de vida, o desmame é gradativo e acontece durante 72 horas, com fornecimento diário de 7, 4 e 2 litros/dia. Aos l00 dias, as bezerras pesam em média 130 kg, uma diferença a mais de 25%, em comparação com o esquema anterior, já que apresentam ganhos de 830 g/dia. “Com isso estamos inseminando as novilhas aos 13 meses, quando atingem de 330 a 350 kg”, informa Soares. No mês de abril, a fazenda estava com 220 bezerras, que consumiam 1.320 litros/dia.

Atualmente as bezerras se alojam em casinhas individuais, uma estrutura que deverá sofrer modificações em breve. A orientação dos ajustes foi de responsabilidade da professora Sandra Gesteira, da Escola de Veterinária da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais. Os acertos se comprovam no bom desenvolvimento dos animais jovens e também na melhor das provas para se conferir o acerto da dieta: as próprias fezes, que hoje se mostram consistentes, pastosas e sem bolhas, o que demonstra bom aproveitamento da ração que consomem.

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Soares: dieta produzida garante mais produção e reprodução precoce


Tifton pré-secado na alimentação - Já para os animais adultos a mudança na dieta tem um nome: tifton pré-secado. O fornecimento desse alimento está completando seis meses, quando a São João resolveu por em prática o que seus técnicos viam há algum tempo em grandes e médias fazendas leiteiras espalhadas pelo País, principalmente na região de Castro, no Paraná. “O fornecimento de pré-secado de tifton traz benefícios operacionais, melhor estabilidade em relação à qualidade do alimento e maior constância no fornecimento”, enfatiza Paulo Henrique.

Sua avaliação embute uma inevitável comparação com o tifton verde, que até outubro último vinha sendo fornecido ao rebanho. “Com o capim verde, ficávamos muito dependentes da oferta e do período do ano, o que exigia ajustes constantes em decorrência do clima e da disponibilidade de maquinário para o corte”, explica. Hoje, a operação é única e há uma padronização de material em cada um dos nove cortes que são realizados durante o ano, sempre com altura próxima de 30 cm.

A São João pretende reservar 80 ha somente para tifton, sendo metade para pastejo e a outra metade para corte, à qual se soma mais 20 ha em área de sequeiro. Seu armazenamento se dá em silo-trincheira, o que exige maior pressão na compactação para garantir boa conservação, pois o alimento se apresenta como fibra seca e longa, de 4 a 5cm. 0 método empregado, segundo Sergio Soares, é o mesmo propagado pela Universidade da Pensilvânia aos produtores norte-americanos.

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São oito pivôs irrigando boa parte do milho para silagem e do tifton utilizado como pastejo e pré-secado


O tifton pré-secado é produzido a partir de um corte pela manhã, um dia de Sol, e recolhimento ao final da tarde. Entra dieta com uma participação de 2 kg de matéria seca(MS), mais 7 kg de MS de silagem de milho, 2 kg de MS de cevada, 1,2 kg de matéria natural de farelo de soja, 2,5 kg de polpa cítrica, 1 kg de soy pass, 4 kg de milho e 2,5 kg de resíduo de bolacha, que substitui o milho de forma econômica. Na São João esta dieta é fornecida às vacas em produção, duas vezes ao dia.

Além da facilidade gerada pelo uso do alimento conservado, o tifton pré-secado tem elevado o percentual de gordura do leite, já que aumenta o pH do rúmen, degradando os alimentos de maneira mais uniforme. Hoje, o índice de gordura está em 3,7%, bem superior aos 3,3% de antes de outubro. Outros indicadores apontados pela Itambé, empresa que processa todo o leite da fazenda, são: proteína, 3,18%; contagem de células somáticas, 277 mil/ml; contagem bacteriana, 13.200 ufc/ml.

GENOMA E PARCERIA

Desde 2011, o projeto genético da Fazenda São João, marcado desde o início por vacas Holandesas exclusivamente, vem ganhando um novo desenho. O principal passo nesse sentido foi dado com a importação de 240 embriões da raça da Fazenda Bomaz, localizada em Wisconsin-EUA, um criatório de referência cia genética naquele país. Os contatos frequentes entre as duas propriedades fizeram com que esta sim ples aquisição remetesse a uma proposta de parceria,o que se efetivou logo em seguida.

“Há algum tempo tínhamos a percepção de que poderíamos dar upgrade em nosso rebanho. A proximidade com a Bomaz ajudou a formatar o perfil de um novo projeto”, relata Clóvis Correa, gestor da fazenda mineira. Nesse sentido, ele se refere à qualidade da genética da fazenda americana que, entre outros predicados, apresenta lactações médias de 15.300 kg; mais de 80 touros prova dos em teste de progênie e outros 100 com provas genômicas; vacas indicadas como a melhor do ano e diversos touros destaques absolutos em TPI.

Constatamos que tais marcas poderiam ser perseguidas em nosso país ao utilizar a mesma base genética e os recursos de que dispúnhamos desde o começo do criatório. Para isso, o tratamento dispensado à genética importada passou a ser criterioso. As primeiras bezerras nasceram em março de 2013 e logo foram genotipadas, confirmando resultados excepcionais. Isso mesmo, a prova genômica passou não somente a envolver o touro como também as fêmeas na fazenda, assim como ocorre na Bomaz.

“O genoma significa duas grandes revoluções. Uma é que leva para o teste de progênie touros que foram previamente destacados. Hoje, se tem um tourinho de 10/20 dias e já se sabe quem ele é geneticamente. A outra revolução é que agora se conhece geneticamente as fêmeas, que deixaram de ser vistas apenas como vacas de boas famílias. Ou seja, com novilhas genotipadas você passa a ter outro patamar de informação”, descreve Correa. Com esse novo recurso, diz que a segurança da informação é tanta que o controle leiteiro é feito somente até a segunda lactação.

Assim, o melhoramento genético mais preciso e muito mais rápido vem direcionando a reprodução para fêmeas jovens. Essa tendência foi assimilada pela São João, que passou a se nortear por vacas, cujos indicadores se traduzam em lucro, ou seja , que vivam e produzam muito leite. A base utilizada para isso vem de famílias que tenham como marca saúde e leite, nada menos do que 20 mil kg. “Está provado que vacas angulosas e refinadas duravam menos. Por isso, a seleção está mudando, valorizando fertilidade e longevidade”, justifica Correa.

Genética e leite com melhor resultado - Acertos nesse sentido têm sido conferidos nas bezerras e novilhas geradas a partir dos embriões Bomaz e que estão sendo criadas nas dependências da Fazenda São João. No gado de um ano, cerca de 40 exemplares, notamos animais fortes e sadios, mas não recomendáveis para pista de exposição”, declara Correa. Explica que pretende renovar o atual rebanho a partir da multiplicação das fêmeas desse lote e de outros 100 embriões que estão chegando, trocando tudo em no máximo três anos.

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Nas fêmeas jovens, o acerto do trabalho integrado entre as duas fazendas


Faz parte do projeto produzir cerca de 400 fêmeas por ano, vendendo no máximo 100, uma quantidade que não compromete os planos da São João. “Com 300 doadoras, a intenção é fazer um grande número de embriões”, cita o gestor. Diz ainda que conta com a venda de tourinhos, cuja tabela determina preços que variam de R$ 8 a R$l4mil. Para as novilhas, os preços são flexíveis. No leilão de março de 2013, a fazenda chegou a oferecer uma bezerra do lote dos em briões importados, que foi arrematada por R$ 32 mil.

Os planos voltados para a venda de animais não deverão mudar o principal foco da fazenda, que é ode produzir leite. A investida em genética tem a intenção pontual de ajustar o rebanho para um fator mais produtivo, ou seja, de melhor resultado. Além da área reservada de pasto, agora anexada ao sistema, a fazenda deverá introduzir melhorias nos galpões free-stall visando maior conforto térmico. Com isso, a meta é trabalhar com média de 32/33kg de leite/vaca/dia e uma reposição em torno de 25%.

Correa admite que dispor de animais de segunda ou terceira geração genômica no Brasil tem algo de pioneirismo, mas entende que esse tipo de seleção veio para ficar e que a evolução do trabalho iniciado há dois anos vai acontecer de forma muito rápida. Sobre a parceria São João-Bomaz, revela que implica deter a exclusividade da comercialização da genética da fazenda americana, ao mesmo tempo em que identifica o potencial de demanda do mercado brasileiro.

Entusiasmado com o projeto, ele só lamenta que o Ministério da Agricultura ainda não aceite o genoma como comprovação de paternidade. “É um absurdo, pois o mundo inteiro aceita”. Para mudar esse quadro já levou até Brasília vários trabalhos científicos que provam que é até muito mais seguro provar paternidade no genoma do que no DNA, além de significar um custo menor.

“Hoje, criador brasileiro tem de fazer as duas provas por exigência do ministério, o que retarda o uso da tecnologia do genoma”, critica.