Custo de logística é o vilão do Agronegócio - por Fátima Lopes - Revista Síntese Agropecuária

O custo logístico no Brasil atingiu a marca de 10,6% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2010, o que representa R$391 bilhões. Agora, você consegue adivinhar qual o setor, dentre 15 pesquisados, que mais sofreu com isso? Ele próprio: para o agronegócio, o custo logístico representou 13,3% de sua receita, superando o setor de bebidas (12%) e a indústria de papel e celulose (11%). As informações são resultado de pesquisa realizada pelo Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), com 100 das mil maiores empresas do País. A média geral de gastos dos diversos setores com o tema na economia brasileira é de cerca de 9% da receita líquida.

Nesses 10,6% do PIB comprometidos com o custo logístico, o grande vilão é o transporte. Dos R$391 bilhões gastos, R$232 bilhões são comprometidos apenas com o transporte doméstico. O estoque responde pelo consumo de R$119 bilhões, seguido da armazenagem (R$26 bilhões) e do administrativo (R$15 bilhões). O custo mais pesado está relacionado à matriz do transporte brasileiro. Destrinchando um pouco mais os custos logísticos, o transporte de carga doméstico por meio rodoviário foi de R$202,6 bilhões, ou 6,3% do PIB. Muito acima dos demais modais: R$10,6 bilhões foi o custo do transporte ferroviário; R$13,5 bilhões do aquaviário; R$3,1 bilhões do dutoviário; e R$1,8 bilhão do transporte aéreo.

A situação já foi pior, é preciso dizer. Em 2004, os custos logísticos representavam 12,1% do PIB, bem acima, portanto, dos 10,6% atuais. Maurício Lima, diretor de Capacitação do Ilos e coordenador da pesquisa, no entanto, não considera isso motivo suficiente para grandes comemorações, particularmente com o olho no futuro. Segundo ele, um grande problema, para os diversos setores da economia, mas particularmente para o agronegócio, é que a chance de continuar diminuindo essa relação de forma significativa vai ficando cada vez menor.

“A perspectiva de o Brasil chegar ao patamar norte-americano, de 7,7%, vai ser cada vez mais difícil. Porque vamos esbarrando justamente na capacidade instalada da infraestrutura”, diz ele. E lembra: “Se você tem pouco duto, começa a ser necessário, para transportar petróleo, usar navios, o que não é o mais adequado. Se você começa a ter muita carga de minério nas ferrovias, por exemplo, começa-se a transportar menos produto do agronegócio [por esse modal], utilizando mais a rodovia”.

Segundo a pesquisa, os custos médios com frente saíram de R$67,00 a tonelada em 2006 para R$82,00 a mesma tonelada em 2011, o que dá um aumento de 22% para carga seca transportada em carreta ou graneleiros em rota de 700 quilômetros. Esse aumento de custos, no entender dos especialistas, se deve justamente à sobrecarga dos meios de transporte no País.

Para o Ilos, a matriz de transporte no Brasil é um dos principais gargalos na questão. A rodovia é historicamente o principal modal de escoamento no País. No ano passado, 66% do transporte foi feito por caminhões, acima dos 65% de 2008. As ferrovias tiveram peso de 19% (foi de 20% em 2008); 11% o meio aquaviário (havia sido responsável por 12% nos dois anos anteriores); e 3% por modal aéreo, contra 4% no período anterior.

Nos Estados Unidos, base de comparação para o trabalho, há distribuição mais eficiente. Lá, o modal rodoviário corresponde a pouco mais de 28% do transporte. Enquanto o Brasil construiu 29 mil quilômetros de ferrovias, os Estados Unidos têm 227 mil quilômetros. Segundo Marcelo Lima, se a matriz de transporte brasileira fosse assemelhada à dos Estados Unidos, sem considerar custos de cada modal, apenas a proporção entre eles, o País teria uma economia de R$90 bilhões.



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A solução para esses problemas passa, necessariamente, por investimentos, mas feitos por meio de uma política consistente tanto de carreamento continuado de recursos como de definição de prioridades, dizem os especialistas. Num congresso recentemente realizado no Rio de Janeiro sobre o assunto, o diretor geral do Instituto Ilos, Paulo Fernando Fleury, informou que, para que o transporte brasileiro possa ser competitivo, seriam necessários investimentos de R$983 bilhões a longo prazo.

Maurício Lima, diretor da entidade, detalha: “Se o Brasil crescer à taxa que vem crescendo nos últimos sete anos, de 4,4% ao ano, o transporte no Brasil teria de aumentar a uma taxa de 4% ao ano em termos de volume-distância, como a gente mede normalmente. Ou seja, são 4% a mais de cada modal”, informa.

Em volume de recursos, seria necessário algo como R$70 bilhões, somente em 2011, para acompanhar a demanda. No PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, estão previstos R$20 bilhões em investimentos na infraestrutura de transporte em geral. Mas Maurício Lima lembra que, na prática, o governo não tem conseguido gastar mais que R$16 bilhões.



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Mesmo com sua superioridade absoluta sobre os demais na matriz brasileira, o transporte rodoviário também não é coisa de primeiro mundo, já que boas estradas é artigo raro: dos 1,6 milhões de quilômetro de estradas, apenas 200 mil quilômetros são pavimentados. Por isso, segundo Fleury, seriam necessários mais de R$800 bilhões para o Brasil se equiparar com os Estados Unidos nesse quesito. Fleury lembra que, no PAC 1, o governo destinou R$43,5 bilhões para isso. No modal ferroviário, o que já existe também deixa a desejar.

De acordo com o instituto, dos R$130,8 bilhões que seriam necessários para ele, R$120 bilhões se destinariam apenas à recuperação das linhas existentes. “Apenas 10% é plenamente ocupado, e 4,7 mil quilômetros estão em mau estado”, diz o executivo. Já para a adequação de portos, 133 obras seriam necessárias, com investimentos que precisariam ser da ordem de R$40 bilhões. O mesmo PAC 1 destinou R$3,3 bilhões para a expansão do sistema.

Para os especialistas, o adiamento das questões referentes à logística tem local certo para bater. Como lembra Maurício Lima: “Você deixa de ter esses ganhos de diminuição do custo logístico em relação ao PIB, porque começa a utilizar o meio de transporte que não é o mais adequado, o mais econômico.” O passo seguinte é, como já vem acontecendo, a sobrecarga de um dos modais, que normalmente acaba sendo o menos adequado e econômico. Para as empresas, isso tem nome: perda de competitividade.

Fonte: Síntese Agropecuária - Setembro/2011 - nº366


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