Desafios e ações para a profissionalização da agricultura

Confira o ponto de vista de Polan Lacki, engenheiro agrônomo autor de diversos textos que abordam medidas, elementares e de baixo custo que podem ser adotadas por agricultores e pecuaristas visando à melhoria da sua rentabilidade. Veja quais ações podem ser tomadas, cuja aplicação depende muito mais de conhecimentos adequados e de atitudes solidárias/cooperativas com vizinhos, que de créditos abundantes.

Ao contrário do que afirmam muitíssimos teóricos, os problemas econômicos dos produtores rurais brasileiros não ocorrem por causa do capitalismo, do colonialismo, do imperialismo, do FMI, do Banco Mundial, da globalização dos mercados, dos subsídios que os países ricos concedem aos seus agricultores; tampouco ocorrem por falta de reforma agrária, de créditos abundantes. Para a grande maioria dos produtores rurais os problemas ocorrem, fundamentalmente, devido à inadequação, insuficiência e/ou obsolescência dos conhecimentos que eles herdaram dos seus antepassados. Estes conhecimentos desatualizados necessitam ser rapidamente adaptados, às novas exigências dos mercados globalizados e altamente competitivos.

Dois semáforos, o verde está premiando os agricultores eficientes, porém o vermelho que está advertindo severamente os ineficientes...


PRIMEIRA MEDIDA

Mudanças nas atitudes dos produtores rurais no sentido de substituir a ilusão dos apoios paternalistas pelo eficiente e organizado protagonismo dos próprios agricultores e pecuaristas na solução dos seus problemas econômicos.

  • Em vez de continuar esperando pelas improváveis, insuficientes, ineficazes e até prescindíveis ajudas materiais e financeiras de governos paternalistas, recomendo que os produtores rurais se associem imediatamente a uma cooperativa agrícola que já esteja proporcionando assistência técnica aos seus associados; pelo simples motivo de que na era da globalização dos mercados o conhecimento atualizado é o insumo mais imprescindível e mais eficaz para melhorar a rentabilidade na agricultura e na pecuária.
  • Caso tal cooperativa ainda não exista no município ou região, os produtores rurais deverão formar um grupo pré-cooperativo com uns 10 ou 20 agricultores solidários e em conjunto contratar um extensionista (agrônomo, zootecnista, veterinário ou técnico agrícola, que preferentemente tenha mais calos nas mãos que títulos acadêmicos pendurados nas paredes do seu escritório).
  • Este eficiente assessoramento técnico é absolutamente imprescindível para que todos os produtores rurais possam começar, imediatamente, a adotar as próximas nove medidas que proponho a seguir.

SEGUNDA MEDIDA

É necessário aumentar os baixíssimos rendimentos médios latino-americanos, por hectare e por animal. Esta é a mais urgente e eficaz medida para começar a substituir a pobreza pela prosperidade rural. Porque neste mundo globalizado e altamente competitivo os produtores rurais, simplesmente não poderão sobreviver economicamente:

  • Enquanto continuarem colhendo em média apenas 5.000 ou 8.000 kg de milho por hectare, porque dentro e fora da América Latina existem muitos produtores que já estão colhendo dez, doze e até mais de dezesseis ton/ha.
  • Enquanto continuarem colhendo em média apenas 2.400 kg de trigo por hectare porque nos países latino-americanos existem muitos produtores que estão colhendo mais de 7.000 kg/ha. Triticultores chilenos estão colhendo 9.500, 10.600 e até 12.000 Kg/ha.
  • Enquanto continuarem colhendo apenas 20.000 kg de batata inglesa por hectare porque os produtores eficientes estão colhendo quarenta, cinquenta e até sessenta toneladas por hectare. Na Bélgica o rendimento médio nacional é de 49 toneladas/ha
  • Enquanto continuarem colhendo menos de 900 kg de feijão por hectare porque os produtores eficientes já estão colhendo até 3.700 kg /ha
  • Enquanto continuarem colhendo apenas 74 toneladas de cana-de-açúcar por hectare porque os produtores eficientes já estão colhendo mais de 300 toneladas/ha
  • Enquanto as suas vacas continuarem parindo um terneiro a cada 20 ou 22 meses e cada uma delas produzindo apenas quatro litros de leite ao dia; porque as vacas de muitos produtores eficientes dentro e fora do Brasil têm regularmente um parto a cada 13 meses e cada uma delas já está produzindo em média 40 litros de leite ao dia.
  • Enquanto os seus novilhos continuarem atingindo o peso de abate aos 40 e até aos 48 meses de vida, porque terão que competir com pecuaristas muitíssimo mais eficientes cujos animais, melhorados geneticamente, bem alimentados e sadios, atingem o peso de abate aos 24, outros aos 20, outros aos 18 meses.

TERCEIRA MEDIDA

Com o propósito de que todos os produtores rurais possam começar, imediatamente, a incrementar estes baixíssimos rendimentos recomendo a seguinte estratégia de pragmatismo: Iniciar esta intensificação produtiva introduzindo aquelas muitas inovações de baixo ou zero custo, cuja adoção depende muito mais do como fazer que do com o que fazer. Porque tais inovações para serem adotadas geralmente não requerem de recursos materiais ou financeiros adicionais àqueles que os produtores rurais já estão utilizando (sejam próprios ou de terceiros).

Com esta atitude realista, de fazer o possível imediatamente, em vez de continuar esperando por improváveis ajudas paternalistas governamentais, inclusive os produtores rurais mais pobres poderão começar imediatamente, a incrementar os rendimentos por unidade de terra e de animal; e consequentemente a melhorar a renda familiar; porém reconheço que necessitarão fazê-lo por etapas, passo a passo.

  • Acesse o site do autor para ver exemplos e formas de implementar tais medidas.

QUARTA MEDIDA

Substituir a quantidade pela qualidade e pela produtividade dos fatores de produção, especialmente dos mais caros e escassos.

  • Com tal propósito sugiro manter nas propriedades rurais apenas a quantidade de animais que os pecuaristas possam alimentar adequadamente, durante os 365 dias do ano.
  • Como regra geral, será economicamente mais conveniente utilizar/ocupar apenas um hectare de terra e melhorar a sua produção forrageira para alimentar adequadamente uma vaca geneticamente melhorada, que poderá produzir 40 litros de leite ao dia; em vez de ocupar 10 hectares de terra escassa e de baixíssima produtividade para manter neles 10 vacas quantitativa e qualitativamente mal alimentadas, que em conjunto produzirão os mesmos 40 litros que poderá produzir uma única vaca mais produtiva em apenas um hectare de terra.
  • Aumentar a renda familiar através do incremento da produtividade dos fatores escassos e do associativismo para comprar melhor, produzir mais e vender melhor, é especialmente importante; porque a grande maioria dos produtores rurais latino-americanos é constituída por minifundistas; e por este motivo adicional esta maioria necessita estar muito bem capacitada e organizada solidariamente para que saiba e possa produzir mais e melhor, com menos hectares e com menos animais.

QUINTA MEDIDA

Substituir as antiquadas e equivocadas monoculturas de grãos, tubérculos ou raízes, que produzem apenas uma ou duas entradas de dinheiro ao ano; recomendo adotar a diversificação produtiva para obter colheitas e rendas familiares em várias épocas do ano; pelo elementar motivo de que as suas famílias necessitam estar bem alimentadas e gastar durante os 365 dias do ano.

  • Será conveniente diversificar a produção agrícola e, se possível, distribuir as datas das semeaduras para reduzir vulnerabilidades e incertezas de pragas/doenças e de clima.
  • Através da diversificação, além dos cultivos extensivos os agricultores poderão produzir em pequenas quantidades algumas espécies de frutas e hortaliças, criar pequenos animais e algumas vacas leiteiras com o duplo propósito de obter frequentes/permanentes produções de alimentos para melhorar a nutrição da família e ter entradas de dinheiro em distintas épocas do ano.

SEXTA MEDIDA

Realizar, também em forma gradual, a reconversão produtiva, substituindo as espécies tradicionalmente cultivadas pelos agricultores pobres e adquiridas pelos consumidores também pobres.

  • Em seu lugar recomendo produzir espécies/bens que são adquiridos pelos consumidores de poder aquisitivo mais elevado. Porque é muito difícil que esta grande maioria de agricultores pequenos e pobres que dispõe de minúsculas superfícies de terra, e produz espécies consumidas pelos pobres possa sobreviver economicamente; por mais elevada que seja a produtividade das suas terras.
  • Analisem a possibilidade e/ou conveniência de substituir tais espécies por algumas outras produções mais “nobres” ou sofisticadas que são adquiridas pelos consumidores que podem e estão dispostos a pagar preços muito mais elevados; tais como: algumas das seguintes espécies que atingem preços muito mais elevados na comercialização.

SÉTIMA MEDIDA

Reduzir as lamentáveis (porque algumas são facilmente evitáveis ) perdas de grãos, hortaliças e frutas, que ocorrem antes, durante e depois da colheita.

  • No caso dos grãos, além de regular/calibrar corretamente a colheitadeira para reduzir as perdas durante a colheita, os agricultores poderão evitar a incidência de mico-toxinas e os elevados danos provocados por gorgulhos e roedores.
  • Também poderão reduzir as perdas de hortaliças e frutas que abundam nas épocas de colheita e se perdem por não transformá-las nas muito apreciadas conservas artesanais
  • Várias frutas secas/desidratadas têm excelente sabor, grande aceitação e elevados preços nos mercados; tais como: abacaxis, pêssegos, ameixas, mangas, figos, maçãs, papaias e pêras.

OITAVA MEDIDA

Melhorar a apresentação visual fazendo uma “maquiagem” nas colheitas antes de comercializá-las.

  • Como, por exemplo lavá-las, classificá-las por tamanho, fracioná-las e empacotá-las.
  • Utilizando a mão de obra familiar os agricultores poderão fazer uma “maquiagem” tão elementar como a que realizam os supermercados antes de vender as frutas, as hortaliças, as raízes/tubérculos e os grãos leguminosos.
  • É graças ao fracionamento e ao melhoramento da apresentação visual de baixíssimo custo, que os supermercados costumam duplicar e até triplicar os preços de venda dos mencionados produtos.

NONA MEDIDA

Adotar a “verticalização”/integração vertical do agronegócio. Porque a única etapa do negócio agrícola à qual a maioria dos agricultores atualmente se dedica (aquela que vai da semeadura até a colheita), é a que exige mais trabalho, é a que está mais exposta/vulnerável a riscos/incertezas de clima, pragas/doenças e de mercado e é a menos rentável.

  • Por esta razão recomendo que os produtores rurais deponham o individualismo, formem grupos cooperativos/solidários para que possam ampliar a escala de produção que lhes permita assumir a execução de algumas etapas ricas do agronegócio; porque é nelas, e não na etapa de produção de matérias primas, que os produtores rurais poderão melhorar muito mais a sua rentabilidade.

DÉCIMA MEDIDA

Abandonar o individualismo que está destruindo economicamente os pequenos produtores rurais. Juntar-se com os seus vizinhos para ampliar a escala de produção, para reduzir/diluir os custos fixos em maquinaria e instalações de alto custo e para fortalecer o poder de negociação/barganha na aquisição dos insumos e na comercialização das colheitas.

  • Clique aqui para acessar artigos do autor com diversos cases sobre esta medida.

Para mais informações sobre o autor, acesse: www.polanlacki.com.br