Duas fazendas, um objetivo - Vitrine Tecnológica DBO

A Revista 'Mundo do Leite' inicia a publicação do Projeto Vitrine Tecnológica, fruto de parceria com o Rehagro, instituição de ensino com dez anos de atuação no agronegócio. O projeto acompanhará, por um ano, a rotina de duas fazendas leiteiras de Minas Gerais, parceiras e usuárias do IDEAGRI: São Jose, em Bonfim, e Fazenda da Gurita, em Bom Despacho. Mesmo com realidades bastante distintas, ambas as propriedades têm um objetivo comum: aumentar a produção e a qualidade do leite, com um custo compatível e dentro do potencial de crescimento de cada uma, administrando melhor o uso de concentrados e aumentando a produção e a qualidade dos volumosos. O caminho trilhado para elevar e garantir maior oferta de volumosos tanto nas águas quanto na seca, sob a orientação dos técnicos do Rehagro, os agrônomos Breno Araújo e Fabio Correa, além dos veterinários Ernane Campos e Vitor Barros, será publicado ao longo de sete edições. Prepare-se para uma aula de tecnologia acessível e eficiente!

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Fazenda São José

"Nosso grande desafio e produzir volumoso em quantidade e em qualidade."
JOSE ALEXANDRE, PROPRIETÁRIO

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Em família: o filho e técnico do Rehagro, Ernane (de azul), convenceu o pai, José, a adotar mais tecnologia.

A Fazenda São Jose, do produtor Jose Alexandre, localiza-se no município de Bonfim, a 90 km de Belo Horizonte, MG. Cravada numa região de muito verde e de nascentes, tem 38 hectares, dos quais 15 são de reserva legal. Nos 23 hectares restantes, o produtor desenvolve a atividade leiteira. Com 52 animais da raça Girolando, sendo 17 vacas em lactação, a produção diária na fazenda está na casa dos 240 litros, com produtividade média de 14 litros/vaca/dia.

Em relação a novembro de 2012 - quando os especialistas do Rehagro, o veterinário Ernane Campos e o engenheiro agrônomo Breno Araújo, começaram a prestar assistência técnica à propriedade - a produção atual teve um acréscimo de 90 litros/dia. Na ocasião, a produção somava 150 litros/dia; a média por animal era de 8,8 litros/dia e a alimentação baseava-se, no verão, em pastagens de braquiária degradada. Os pastos haviam sido formados há anos e nunca se havia feito adubação ou correção de solo. No inverno, os animais comiam capim napiê passado e cana. Esta última procedente de um canavial velho, de baixas produção e qualidade. Além disso, os animais recebiam concentrado, comprado a um preço bastante caro. "Ele pagava caro porque não tinha como barganhar, dada a pequena produção e o baixo fluxo de caixa", diz Ernane.

O técnico explica que a baixíssima qualidade do volumoso ofertado aumentava ainda mais a demanda por concentrado e, como consequência, o custo de produção do já descapitalizado produtor só aumentava. Um aspecto interessante na história que está sendo construída na Fazenda São Jose é que Ernane é filho do proprietário. Por muito tempo, porém, santo de casa não fez milagres. "Após bastante argumentação e visitas a outras realidades, as ideias foram aceitas e o trabalho começou, com bastante empenho de todos", diz Ernane.

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O diagnóstico feito no inicio do trabalho também indicava o endividamento do produtor, baixa produção e produtividade do rebanho e baixa oferta de volumoso, que também não tinha boa qualidade. Do lado positivo, figuravam a boa capacitação e o empenho das pessoas no caso, Seu José, sua esposa, Solange, e o funcionário Pedro, além da alta qualidade do leite e do bom potencial dos animais. Isso pode ser confirmado com a rápida resposta produtiva apresentada pelo rebanho quando foi introduzido o milheto, plantado em substituição à braquiária. "O milheto é um bom alimento para as vacas e tem características agronômicas que ajudam na preparação do solo", explica Ernane. A produtividade saltou de 8,8 litros/vaca/dia para 11,6 litros/vaca/dia.

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O rebanho e instalações: vacas já começaram a receber suplementação com cana-de-açúcar corrigida.

Seriedade - O início dos trabalhos anima Seu José, que sempre gostou do leite, mas só passou a dedicar-se integralmente à atividade quando deixou a vida de agrimensor na capital para refugiar-se na fazenda, herança de família. A produção leiteira já era um gosto de seu pai, mas nunca foi levada tão a sério como agora.

A São José está iniciando um processo de organização da sua estrutura, incluindo: a substituição de volumosos antigos e pouco eficientes por outras variedades mais adequadas à demanda dos animais; a divisão da propriedade em piquetes, com módulo de plantio rotacionado; e a organização da gestão, com controle e anotação de todas as práticas na fazenda.

Todas essas mudanças, que se iniciam na Fazenda São Jose, estão sendo feitas para que José Alexandre e sua mulher atinjam o objetivo de chegar ao fim do projeto, em novembro de 2014, com uma produção de 720 litros/dia, com uso de pastejo rotacionado, irrigação por malha, uso de cultura de inverno e suplementação parcial com cana-de-açúcar corrigida. Isso sem contar com a readequação e a intensificação do uso da área. Com isso, 9 hectares poderão ser usados para uma outra atividade, ainda não definida pelo produtor, para ampliar e diversificar sua receita. "Para alcançar essa produção, que é a capacidade máxima que podemos atingir dentro da mesma estrutura atual, nosso grande desafio é produzir volumosos em quantidade e em qualidade", revela o produtor, sob o olhar de aprovação do filho. Com comida em abundância e de melhor qualidade, Ernane espera reduzir o intervalo entre partos na propriedade, hoje ainda alto, como consequência da alimentação insuficiente e de baixa qualidade. Motivo pelo qual o número de vacas secas no rebanho ainda é alto (hoje apenas 63% das vacas estão em lactação).

Para atingir seu objetivo, o produtor já iniciou algumas mudanças. A começar pela análise de solo para planejar a correção e adubações adequadas, o plantio de novas variedades de cana-de-açúcar e a extinção das antigas e introdução do milheto.

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O pasto, hoje: na Fazenda São Jose, cupinzeiros deverão sair. No lugar, capim novo e mais piquetes.

No Projeto Vitrine Tecnológica, o leitor acompanhará, na Fazenda São José, a introdução das novas áreas de cana-de-açúcar, que, em 2014, deverão somar 1,9 hectare (hoje há apenas 1 hectare). Verá ainda como será feita a introdução do tifton - desde a multiplicação das mudas em viveiro, sua replicação, até o plantio e o estabelecimento nos piquetes, que deverão somar 3,5 hectares no fim do projeto. Nessa área, que deverá ser irrigada, será feita sobressemeadura de aveia e azevém no inverno.


Fazenda da Gurita

"Nosso grande desafio é aumentar a capacidade de suporte."
PAULO GONTIJO, PROPRIETÁRIO

Localizada no município de Bom Despacho, centro-oeste mineiro, a 150 quilômetros da capital, a Fazenda da Gurita traz para o Projeto Vitrine Tecnológica um outro perfil de produtor de leite. Aquele que já tem seu negócio consolidado, mas quer crescer ainda mais. Aquele que, como empresário bem-sucedido, estabelece metas e, junto com estas, estratégias. E essa a história que acompanharemos nas próximas edições. Ou seja, como o proprietário aumentará a capacidade de suporte, condição considerada fundamental para que a produção salte dos atuais 3.150 litros/dia para 5.000 litros/dia ate 2015.

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Equipe afinada: estratégias traçadas com o Rehagro levam rebanho de Gontijo (acima, a dir. na foto) a major produtividade.

"Entre 2013 e 2015, nosso trabalho aqui na Gurita será o de manejar com eficiência todo volumoso disponível na fazenda, investindo em fertilidade de solo. Isso é o que leva a um aumento da capacidade de suporte"', explica o agrônomo Fábio Corrêa, que, junto com o veterinário Vitor Barros, presta assistência técnica ao produtor. Hoje, a lotação esta em 5,6 vacas/hectare, o que equivale a 7 UA/hectare. A ideia e chegar a 7,8 vacas/hectare, ou seja, 9,8 UA/hectare. "A intensificação permitirá esse aumento de capacidade", conclui Corrêa.

A entrada do produtor Paulo Gontijo no leite ocorreu em 1990, quando ele comprou do pai dez vacas em lactação, todas com bezerras ao PO. "Um negócio de pai para filho", relembra, rindo. A produção na época era de 100 litros por dia e a área total somava 14 hectares. Passados seis anos, o plantel da Gurita era de 85 vacas (entre secas e em lactação) e a produção chegava a 500 litros de leite/dia. Sem nenhum tipo de assistência técnica, ele aplicava o que via os amigos fazerem e também ideias do que considera seu "tino comercial". E assim tocava o negócio.

Em 2005, iniciou uma aproximação com o Rehagro, por intermédio de Fábio Corrêa. Ao perguntar o que deveria fazer com as sobras de recursos, o agrônomo lhe indicou investir na produção de alimentos volumosos. No primeiro ano, sugeriu o plantio de tifton e, no ano seguinte, a compra da cana para plantio. O resultado das boas sugestões foi o trabalho iniciado em 2007.

De lá para cá, muita coisa já mudou na Fazenda da Gurita. A produção baseada na braquiária extensiva com silagem de milho, sorgo no inverno e ração comprada pronta foi substituída por pastagens de qualidade, ração balanceada e feita na fazenda, e a introdução da cana-de-açúcar corrigida no lugar da silagem de milho, pois as quebras na lavoura por causa das condições climáticas, sobretudo veranicos, significavam grandes perdas econômicas. O pastoreio tornou-se intensivo e o pasto melhorou significativamente de qualidade, sendo dividido em piquetes para aumentar a eficiência do pastoreio, como explica o veterinário Vitor Barros. A correção de solo também ganhou importância no manejo das pastagens.

Todas as mudanças foram adotadas com muita disposição por parte de Paulo Gontijo, um gestor detalhista, que conhece minúcias do seu negócio e faz questão de que não só os controles informatizados estejam bem organizados, como tudo na propriedade, desde a sala de ordenha, passando pela farmácia e pela fábrica de ração, entre outros locais. Organização, boa sinalização e limpeza dão a tônica ao negócio.

O produtor é um otimista em relação à produção de leite e vem planejando com afinco esse crescimento. "Não se forma um pasto de uma hora para outra, assim como todas as melhorias feitas na Gurita acontecem paulatinamente, de acordo com o fluxo de caixa", explica. Apesar da parcimônia, ele não tem dúvidas de que alcançará sua meta em 2015 e credita isso ao trabalho da equipe, que e muito afinado, e a definição de estratégias de longo prazo. Vale a pena acompanhar esses movimentos.

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No Projeto Vitrine Tecnológica, a Fazenda da Gurita pretende principalmente elevar a intensificação do pasto, por meio do manejo adequado de todo o volumoso produzido na propriedade.

TEXTO E FOTOS: INES FIGUEIRÓ

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