Empreendedores por natureza

Um dos setores que mais gera riqueza para o Brasil, o agronegócio pode garantir um salto ainda maior com investimentos em capacitação de mão de obra e em sistemas de gerenciamento mais eficientes. Iniciativas não faltam para atingir essa meta. Só o Rehagro já treinou mais de 10.000 pessoas em cursos de longa duração em seus 10 anos de atuação. A rede está presente em 17 estados do Brasil e prepara novos projetos para atuar diretamente nas fazendas, com foco em gestão. A lista de cursos oferecidos pela Rehagro engloba capacitação, pós-graduação, ensino a distância, cursos corporativos, além de consultorias. Em entrevista à revista O Girolando, o diretor do Rehagro, Clóvis Eduardo S. Corrêa, fala sobre gestão de propriedade, os desafios da educação rural e os projetos da instituição, que em 2014 passa a integrar a equipe de Parceiros Masters da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando.

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O Girolando - A pecuária leiteira exige um gerenciamento maior que outros tipos de propriedade? Quais seriam os pontos que exigem maior cuidado na gestão de uma propriedade leiteira?

Clóvis Corrêa - A pecuária leiteira é uma atividade complexa. Algumas características aumentam sua complexidade. No modelo predominante no Brasil o produtor de leite precisa ser um excelente agricultor. Esse é um ponto importante. É como se ele tivesse que ser bom em duas atividades: produzir leite e ser agricultor. Além disso, a atividade é diária. Muitas rotinas se repetem 365 dias por ano. Isso é muito pesado. Acho que produzir leite demanda vocação. Acho que o gerenciamento eficiente na pecuária de leite exige uma metodologia de trabalho. Isso é o que temos feito nas propriedades em que trabalhamos e temos levado para nossos cursos. Essa metodologia basicamente envolve uma cultura de estabelecer metas, monitorar indicadores, tomar decisões capazes de corrigir as anomalias e checar se o resultado melhorou. Isso se aplica a qualquer negócio, mas temos visto resultados muito interessantes na atividade leiteira.

O Girolando - O produtor brasileiro é bom gestor de negócios ou a fazenda ainda não é encarada como empresa?

Clóvis Corrêa - Acredito que temos os dois casos. Temos milhares de produtores profissionais. Pessoas que conduzem seus negócios com alto nível de conhecimento e com resultados muito bons. Esses produtores estão fazendo um grande trabalho e fazem com que o agronegócio tenha tanta importância para o Brasil. Por outro lado, infelizmente ainda temos produtores que estão marginalizados pela falta de conhecimento. Muitos desses produtores estão lutando para sobreviver em seus negócios, mas estão sendo totalmente penalizados por não conseguirem acesso ao conhecimento que promoveria enorme mudança.

O Girolando - A tecnologia tem contribuído para ampliar o número de pessoas capacitadas no campo?

Clóvis Corrêa - Tenho convicção de que o número de pessoas capacitadas está crescendo. O desafio é enorme, pois ainda estamos muito longe do ideal. Temos convivido com produtores do Brasil todo em nossos cursos e, por isso afirmo sem medo de errar, que ainda podemos ter enormes ganhos para o setor, capacitando as pessoas envolvidas na cadeia produtiva. A tecnologia na educação tem evoluído demais e com certeza já está ajudando na evolução do nível de conhecimento das pessoas. Acredito que teremos ganhos ainda maiores nos próximos anos. A chegada da próxima geração ao mercado de trabalho a meu ver vai revolucionar a nossa maneira de educar.

O Girolando - A falta de mão de obra qualificada é um problema em vários setores da economia nacional. No campo, quais as alternativas para acabar com esse entrave?

Clóvis Corrêa - Concordo plenamente que a falta de mão de obra qualificada é um problema nacional. Acredito que parte do problema do campo tem solução semelhante ao problema da cidade. Acho que começa pela seriedade dos nossos políticos ao usar bem os recursos gerados pela enorme carga tributária que o setor produtivo brasileiro paga, passa pela valorização dos professores do ensino básico e ensino médio e também pela valorização dos cursos profissionalizantes. Percebo que a questão do campo tem uma variável a mais: a valorização do agronegócio junto às famílias de produtores é muito importante para que os jovens possam ter interesse em se qualificar na área.

O Girolando - Antigamente, os filhos dos produtores e trabalhadores rurais se mudavam para a cidade para estudar e lá ficavam, pois era sinônimo de vencer na vida. Qual a situação hoje?

Clóvis Corrêa - A retenção dos filhos passa pela percepção de sucesso dos pais. Se o negócio do pai é bom e permite ao filho uma vida boa e digna, esse filho vai naturalmente se interessar pelo negócio. Por isso, vencer na vida pode ser conseguir conduzir o negócio rural do pai para um sucesso ainda maior. Precisamos valorizar o nosso negócio e gerar interesse em nossos filhos. Não por continuísmo somente, mas porque acreditamos que é uma ótima opção para eles.

O Girolando - A Rehagro está no mercado há 10 anos. Que balanço faz deste período de atuação da empresa?

Clóvis Corrêa - Sou muito feliz por termos conseguido tantas coisas. Deus tem nos ajudado muito e nos dado grandes oportunidades. Começamos com um sonho de contribuir na formação das pessoas. Conseguimos reunir uma equipe com pessoas maravilhosas, técnicos excepcionais. A grandeza da causa acabou atraindo tantas pessoas espetaculares. Grandes técnicos, mas fundamentalmente seres humanos incríveis. Sou grato pela equipe que conseguimos reunir nestes 10 anos. Além disso, estamos em 17 estados do Brasil. Treinamos mais de 10.000 pessoas em cursos de longa duração. Fizemos milhares de novos amigos; 98% dos nossos ex-alunos recomendam os nossos cursos. Temos uma marca cada vez mais conhecida e respeitada. Nunca vamos conseguir medir o tamanho do impacto que geramos, levando conhecimento a tanta gente. Tenho certeza de que estamos contribuindo e queremos fazer muito mais. Sonhamos com um agronegócio cada vez mais sólido e queremos ser reconhecidos por termos contribuído com o avanço do nosso setor.

O Girolando - Quais os projetos para a próxima década de atuação da Rehagro?

Clóvis Corrêa - Somos empreendedores por natureza. Estamos sempre pensando em novos projetos. Queremos continuar fortes na área do ensino, que como disse anteriormente deve passar por uma revolução nos próximos anos. Já temos dois novos grandes projetos em andamento, o Ideagri e o 3rLab, ambos em sociedade com outras empresas. Além disso, temos grandes aspirações na área de atuação direta em fazendas. Temos pensado em consolidar grandes projetos nas nossas áreas mais fortes (leite, corte, café e grãos). Temos experiência na gestão desses quatro negócios e estamos pensando em maneiras de levar essa experiência para a consolidação de grandes empreendimentos.