O software como produto acabou? Por Luiz Alberto Ferla
Os mais conservadores poderão contestar essa declaração, mas o mercado dá sinais bastante claros sobre isso - o “software de prateleira” tende a desaparecer."
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Durante todos esses anos à frente da Knowtec, pude observar algumas tendências de mercado, e uma delas é bastante clara: o modelo comercial de software como produto de tecnologia isolado está com os dias contados.

Os mais conservadores poderão contestar essa declaração, mas o mercado dá sinais bastante claros sobre isso. E a consolidação do software livre é o principal deles. Mas antes de analisar detalhadamente esses sinais, vale à pena destacar alguns fatos que causaram essa mudança até o final da década de 1990, de acordo com dados do “Chaos Report” do Standish Group:

- Apenas um terço dos projetos de software alcançam os resultados esperados.
- Mais da metade dos projetos de software superam os orçamentos previstos.
- Apesar dos custos com equipamento estarem caindo, os custos associados ao desenvolvimento de software vêm aumentando.

De acordo com esses dados, quando um projeto de software começa a ter problemas, os indicadores financeiros (orçamento) e de escopo (resultados esperados) são os primeiros a serem percebidos. Porém, muitas vezes as organizações não compreendem as reais causas do fracasso do projeto. Isso acontece porque, geralmente, a culpa é colocada na tecnologia em si, quando o cerne da questão é exatamente o foco excessivo nos artefatos tecnológicos, que deixa os processos e o elemento humano de lado.

É comum desenvolvedores de sistemas se tornarem verdadeiros especialistas nas áreas de negócio relativas ao software que estão criando. Isso é um sintoma muito grave! Claro que é importante que o desenvolvedor, especialista em tecnologia, tenha uma ótima compreensão sobre o software que está sendo desenvolvido. Entretanto, o conhecimento especializado sobre as regras de negócio deve estar nas mãos daquelas pessoas que dominam esse processo no seu dia-a-dia. E é aí que o modelo de software como produto tem o seu ponto fraco.

É virtualmente impossível que uma fornecedora de software faça um sistema que atenda a todo e qualquer tipo de empresa. Afinal, cada uma tem a sua especificidade, suas necessidades, seus processos individuais. Além disso, é bastante improvável que os desenvolvedores de sistemas compreendam 100% das regras de negócio de todo e qualquer tipo de empresa. Portanto, processos de implantação de software que estejam centrados na tecnologia, acabam não atingindo os seus objetivos na maior parte dos casos.

Para um melhor entendimento, deve-se ter uma percepção mais abrangente sobre o que é um software, ou um “sistema de informação”. De acordo com o dicionário Houaiss, sistema é uma “técnica ou meio de se fazer alguma coisa, especificada de acordo com um plano”. Portanto, um “sistema de informação” é uma técnica ou meio de se organizar informações, especificada de acordo com um plano. Deve-se observar que a definição não aborda nenhum elemento tecnológico.

Antes de se adotar a tecnologia, deve-se averiguar se os processos a serem considerados no “sistema” em questão estão adequados. Caso positivo haverá um ganho considerável se forem adotadas as tecnologias adequadas e se for realizada uma boa gestão de mudanças. Caso os processos estejam errados, o uso da tecnologia causará apenas erros mais rápidos e em maior volume. E caso não seja considerada uma gestão de mudanças adequada, mesmo a melhor tecnologia pode ficar de lado, ou pode ser rejeitada pelas pessoas que irão fazer uso dela.

Agora vê-se uma mudança conceitual: a tecnologia deixa de ser o centro do negócio e passa a ser uma forma de agregar valor a um negócio. Ou seja, o serviço passa a ser o centro das atenções.

A partir dessa visão mais adequada é que surgiram novas possibilidades de negócio para o mercado da tecnologia. Com o advento de software livre, surgiram empresas vendendo serviços de consultoria, personalização e até operação de softwares que não têm custo de aquisição. E isso não significa que a tecnologia seja gratuita ou de baixa qualidade, muito pelo contrário. Apenas o modelo é diferente. Aliás, em muitos casos, as personalizações no software resultam em melhorias que podem ser incorporadas aos sistemas originais, retro-alimentando um círculo virtuoso.

Paralelamente ao software livre, há empresas de tecnologia que adotaram um modelo de comercialização de software que considera “pacotes” de serviço cobrados no modelo de mensalidade, eliminando, inclusive, os custos com aquisição de licença. Entre os serviços oferecidos estão consultoria, personalização, hospedagem, manutenção do sistema, monitoramento, etc. E, de forma bastante parecida com o que acontece no universo do software livre, aquelas personalizações no software que têm potencial de melhoria no sistema original podem ser incorporadas ao projeto principal.

E até o modelo de comercialização de software “alugado”, avançou. Inicialmente, era conhecido como ASP – Application Service Provider (Provedor de Serviço de Aplicações), porém esse modelo ainda mantinha o foco apenas na tecnologia, com uma visão comercial um pouco diferente. Hoje, se fala em SaaS – Software as a Service (Software como Serviço), que considera a tecnologia como parte fundamental da solução comercializada, mas dá maior importância aos serviços prestados, atendendo da melhor forma às necessidades dos clientes.

Por estar baseado principalmente em serviços, o modelo SaaS considera um compromisso entre cliente e fornecedor, visando o sucesso do contrato. Além disso, o investimento do cliente passa a ser diluído ao longo do tempo, diminuindo drasticamente os riscos financeiros relacionados à aquisição de software.

É claro que o modelo clássico de comercialização de software como produto, com a tradicional venda de licença, não irá desaparecer completamente. Mas a tendência é que esse tipo de sistema fique cada vez mais restrito a nichos específicos, com regras de negócio fixas e/ou com pouca possibilidade de mudança. E ainda assim, a tendência é agregar serviços cada vez mais, em busca da diferenciação em relação à concorrência.

O que está bastante claro no mercado é que o “software de prateleira” tende a desaparecer. Independentemente do tamanho, atualmente as empresas querem soluções que resolvam seus problemas como um todo, e não apenas partes. Além disso, é importante considerar flexibilidade na forma de investimento nas soluções. E é a partir dessa realidade que as empresas fornecedoras de soluções precisam atualizar a sua visão comercial, deixando de lado simplesmente os produtos tecnológicos e agregando mais serviços ao seu portfolio. Assim, a tecnologia deixa de ser um produto voltado para ela mesma, e passa a ser parte das soluções, como um importante fator agregador de valor nos negócios de fornecedores e clientes.

Sobre o Autor: Luiz Alberto Ferla, CEO da Knowtec.
Lidera um time de mais de 100 pessoas, conhece todos pelo nome e ninguém entende como ele encontra tempo para interagir com cada um.

Fonte: http://www.knowtec.com

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