O uso de métodos de identificação da mastite na tomada de decisão de controle e tratamento

A definição de estratégias para controlar a mastite e alcançar os índices ideais para a produção de leite com elevado padrão de qualidade só é possível pela identificação da existência do problema, da dinâmica de infecção presente e dos agentes causadores de mastite em cada propriedade. Dessa forma, é essencial o uso de ferramentas de diagnóstico da mastite no rebanho.

Patrícia Vieira Maia, médica veterinária, pós-graduanda em pecuária leiteira - Núcleo de qualidade do leite ReHAgro

Fonte: Revista InteRural, julho 2010


Vários métodos de diagnóstico podem ser empregados com o intuito de acompanhar a dinâmica da infecção no rebanho. Geralmente, a mastite clínica é detectada por observações visuais dos próprios ordenhadores sobre as condições anormais do leite e/ou do úbere das vacas por meio do teste da caneta de fundo escuro (Figura 1). Neste teste, é detectada a presença de grumos e/ou anormalidades no úbere. O California Mastitis Test (CMT) e a Contagem de Células Somáticas (CCS) são métodos empregados para o diagnóstico da mastite subclínica, na qual há infecção da glândula mamária, mas não há alteração visível no leite. A forma e frequência de realização e a organização dos dados provenientes desses métodos de diagnóstico são fundamentais para gerar informações úteis aos veterinários e aos proprietários de rebanhos, no intuito de inferir sobre a real situação da fazenda. Esses dados, por consequência, podem auxiliar na correta tomada de decisão e na resolução dos problemas, eventualmente, enfrentados.

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Presença de grumos no teste da caneta de fundo escuro, mostrando um teste positivo para a mastite clínica.

CONTAGEM DE CÉLULAS SOMÁTICAS DO TANQUE

As células somáticas presentes no leite são compostas por células da descamação do tecido mamário e leucócitos provenientes da circulação sanguínea. Em um quarto infectado, aproximadamente 99% das células presentes são células de defesa, que têm a função de combater agentes infecciosos e participar dos processos reparatórios da glândula, após o término da infecção, e 1% são células de descamação. A Contagem de Células Somáticas pode ser mensurada em diferentes níveis, porém a CSS do tanque de expansão e a CSS individual do animal são as formas mais frequentes e necessárias para o acompanhamento do status infeccioso dos rebanhos.

A CSS do tanque é a referência mais comum para a identificação de problemas de mastite. Geralmente, a CSS do tanque pode ser considerada como bom parâmetro para a detecção de problemas de mastite (Tabela 1).


Tabela 1. Prevalência estimada de infecção e perdas na produção de leite, associadas à alta contagem de células somáticas do tanque de expansão*

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*Perda da produção calculada como porcentagem da produção esperada a 200.000 cél. / ml.
CCSTQ = contagem de células somáticas do tanque de expansão.
**Fonte: NMC, 1987.


No entanto, a CSS de tanque é influenciada pela CSS e produções individuais, podendo ser considerada somente como um indicativo de mastite subclínica, sendo que seus valores, geralmente, agregam pouco para a definição do real problema no rebanho. É muito difícil para o proprietário ou para o consultor técnico reconhecer problemas emergentes de mastite mediante os aumentos lentos ou esporádicos da CSS de tanque. Todavia, análises semanais da CSS do tanque podem ser utilizadas como ferramenta para auxiliar nessa identificação, podendo ser empregada como forma de monitoramento.

CONTAGEM DE CÉLULAS SOMÁTICAS INDIVIDUAL

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Frascos para coleta de amostra de leite para contagem eletrônica de células somáticas e teste de CMT


O diagnóstico da mastite subclínica pode ser realizado pelo isolamento do agente infeccioso da glândula ou por meio da verificação da reação inflamatória advinda da infecção. Em acompanhamentos epidemiológicos, a fácil execução do método diagnóstico e o custo acessível são de grande importância para permitir que avaliações rotineiras sejam realizadas. Neste contexto, a CCS individual se torna um poderoso aliado!

O CMT é um método fácil e confiável para o diagnóstico de mastite subclínica. O reagente CMT é, simplesmente, um detergente associado a um indicador de pH (púrpura de bromocresol). O nível de reação entre o detergente e o DNA nucléico das células é a medida do número de células somáticas no leite. A relação entre os valores de CCS e CMT não é precisa devido ao alto grau de variabilidade de valores de CCS para cada escore de CMT (Tabela 2). A reação de CMT deve ser lida dentro de 15 segundos após a mistura do leite com o reagente, pois reações fracas desaparecem com o tempo.

Frequentemente, ao se realizar o CMT em uma fazenda, determina-se o escore 2 como animal suspeito e o 3 animal com infecção. No entanto, observando na tabela 2 e tendo como infectado o animal que apresente CCS> 250.000cels./ml, o resultado “traço” já determina que o animal esteja infectado.

Tabela 2. Relação entre contagem de células somáticas e escore de CMT.*

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Adaptado de: Ruegg (2003).


É um teste eficiente quando se deseja um diagnóstico imediato. Entretanto, tem como limitações a elevada demanda de tempo e a necessidade de um profissional capacitado para a execução. Dessa maneira, torna-se um método relativamente caro e de difícil operacionalidade.

O CMT é recomendado nas seguintes situações:

  1. Detecção de mastite subclínica em vacas recém adquiridas de outros rebanhos;
  2. Determinação de qual quarto mamário se encontra infectado, quando a vaca apresenta alta CCS na amostra composta de leite, pelo método de contagem eletrônica;
  3. Detecção periódica da mastite subclínica do rebanho, quando não for possível realizar a contagem eletrônica das células somáticas;
  4. Avaliação da mastite subclínica após o parto (a partir da segunda semana), para identificar infecções relacionadas com o período seco e avaliar a eficácia do tratamento de vacas secas ou manejo no pré-parto.


Equipamentos de contagem eletrônica de células somáticas possibilitam a análise rápida e em grandes volumes de amostras. O custo relativamente acessível dessa análise permite que criadores façam o acompanhamento individual dos animais, gerando informações essenciais para um eficiente programa investigativo. Para isso, a análise deve ser realizada mensalmente nas propriedades.

A amostra composta dos quatro quartos de cada vaca deve ser enviada ao laboratório especializado. Por meio dessa análise, não é possível detectar qual teto está afetado e pode ocorrer também o efeito de diluição. Isso acontece porque apenas um teto pode estar afetado os outros três não, diluindo, assim, a contagem de células somáticas do teto com infecção. A contagem eletrônica é um método bastante utilizado, prático e eficiente, por se tratar de uma análise direta da contagem de células somáticas e não uma análise indireta como o CMT.

AÇÕES ESPECÍFICAS PARA CADA TIPO DE AGENTE

As mastites podem ser classificadas quanto ao tipo de bactéria em dois grupos: contagiosa, causada principalmente por Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae e ambiental, causada pelos coliformes (E.coli, Klebsiella, Enterobacter e outros) e Streptococcus ambientais (S.uberis, S.dysgalactiae).

A mastite contagiosa caracteriza-se por se apresentar, sobretudo, na forma subclínica, tendendo a se tornar crônica, ou seja, a CCS, geralmente, registra valores acima do considerado como infecção por, no mínimo, 2 meses consecutivos. É transmitida de um animal para o outro durante as ordenhas. Medidas como o pós-dipping, tratamento de vacas secas, segregação e descarte de vacas portadoras de mastite crônica, são necessárias para o seu controle.

A mastite ambiental apresenta-se, geralmente, na forma clínica, podendo ocasionar alterações como úbere inchado, febre, falta de apetite e levar o animal a óbito. Em uma dinâmica de infecção por patógeno ambiental, as novas infecções e a cura espontânea são elevadas. Assim, a CCS será utilizada para obter as taxas de novas infecções e de vacas curadas. A contaminação ocorre entre as ordenhas e medidas como o pré-dipping e o ambiente adequado na área de permanência dos animais são importantes para seu controle.

É fundamental, portanto, para a determinação de práticas de controle, a identificação das bactérias causadoras de mastite, permitindo que as ações sejam direcionadas de forma específica para cada rebanho. Para tanto, é preciso que seja realizada a análise microbiológica do leite, podendo ser feita no tanque ou individualmente (Foto 3). A coleta de amostra de leite de tanque, durante 3 dias consecutivos, aumenta a confiabilidade na determinação dos patógenos envolvidos na qualidade do leite de cada rebanho.

A identificação de elevada prevalência de bactérias contagiosas (Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae) denota que a rotina de ordenha, provavelmente, não está adequada. Vacas infectadas por Staphylococcus aureus devem ser os últimos animais a serem ordenhados, realizando, assim, a segregação de vacas portadoras deste patógeno. O objetivo principal dessa medida é limitar a transmissão da doença. A taxa de cura dessa bactéria, com tratamento antibiótico, é sempre muito baixa. Dos animais tratados, geralmente, menos de 50% são curados. Assim sendo, os animais portadores devem ser segregados e, posteriormente, descartados.

No caso de Streptococcus agalactiae, é possível ficar livre dessa bactéria no rebanho com o uso de antibióticos em animais em lactação. Elevada taxa de cura, acima de 90%, pode ser alcançada com o uso de antibióticos, conhecido como Blitz Terapia, que consiste no tratamento durante a lactação de todos os animais positivos.

Se o exame de laboratório revelar a ocorrência de mastite ambiental, é preciso focar na melhoria do ambiente em que os animais permanecem. É necessário percorrer as instalações, piquetes, observar se há acúmulo de barro, camas com umidade elevada e acúmulo de fezes. Com a melhoria das condições de ambiente e critérios adequados de higiene pré-ordenha e o uso do pré-dipping, reduz-se, consideravelmente, a ocorrência dessas bactérias.

Para a mastite causada por coliformes, uma boa opção de controle, evitando quadros graves da doença, é a vacinação do rebanho. A imunização contra mastite causada por coliformes pode reduzir a duração, a severidade de sinais clínicos e a reincidência nos primeiros 100 dias de lactação e aumentar a taxa de cura espontânea, embora não previna a ocorrência de infecções. O uso desta prática deve ser avaliado pelo veterinário responsável pelo rebanho.

Na mastite causada por Streptococcus uberis, a maior prevalência observada ocorre quando os animais se deitam em piquetes muito contaminados com esterco seco. Em sistemas freestall, isso pode ocorrer quando não se preocupa com a origem da areia e com a sua adequada reposição. Assim, medidas como a retirada do esterco seco e o uso de areia de origem conhecida e de boa qualidade e com reposição periódica, são as que auxiliam no controle deste microrganismo.

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Coleta de amostra individual de leite para análise microbiológica


IMPORTÂNCIA DOS MÉTODOS DE DIAGNÓSTICO

Para uma correta atuação na prevenção e controle da mastite dentro de um rebanho, a identificação da existência de problemas e a correta definição destes são essenciais. A mastite é uma doença de causa multifatorial e a interação dos múltiplos fatores envolvidos tornam a doença bastante complexa. Como regra, também em outras doenças, quanto mais cedo o diagnóstico de problemas relacionados à mastite no rebanho, maiores são as chances de reversão e controle da situação. Perdas decorrentes de casos clínicos são rapidamente identificadas, porém perdas com a mastite subclínica são, geralmente, superiores e passam despercebidas em muitos casos. Portanto, é nesse sentido que uma investigação eficiente e rotineira da situação da mastite no rebanho é necessária e fundamental para garantir um melhor status do rebanho com relação à doença que mais prejuízo causa à atividade.

*As informações contidas neste texto procedem da troca de conhecimentos trazidos pela experiência dos integrantes do Núcleo de Qualidade do Leite do ReHAgro, do qual a médica veterinária Patrícia Vieira faz parte.


Além da utilização dos métodos de diagnóstico, a realização de controles eficientes dos casos de mastite e o armazenamento adequado dessas informações possibilitam a análise precisa dos dados e facilitam a tomada de decisões. Veja um exemplo, utilizando um bom software de gestão.

Tabela: Avaliação da prevalência, incidência dinâmica e cronicidade de mastite subclínica em relação ao número de animais avaliados.

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Fonte: IDEAGRI

Figura: Avaliação da prevalência, incidência dinâmica e cronicidade de mastite subclínica em relação ao número de animais avaliados.

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Valor limite de CCS para definição de mastite subclínica: *280 mil

*Este valor é definido pelo usuário nas configurações do sistema

Fonte: IDEAGRI

Figura: Avaliação do escore linear no mês atual em relação ao mês anterior

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Fonte: IDEAGRI